Expresso | Gerir água de forma inteligente

23 Feb' 26

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Sempre que chove de forma intensa em Portugal, o guião repete-se: ruas inundadas, carros submersos, comerciantes a limpar prejuízos, famílias assustadas. No dia seguinte, fazem-se contas aos danos e promete-se “avaliar a situação quando terminar”. E depois… segue-se em frente até ao próximo episódio.

A verdade é dura, mas infelizmente simples: não podemos fingir que estes episódios são excecionais. A precipitação intensa e concentrada passou a fazer parte da nossa realidade. E, paradoxalmente, alterna com períodos cada vez mais prolongados de seca.

Vivemos extremos: demasiada água num curto espaço de tempo, e escassez em períodos prolongados. E as nossas cidades e vilas, muitas delas pensadas noutra época e para outro clima, não estão preparadas para este novo contexto.

O problema não é só a quantidade de precipitação. É o que foi feito às zonas urbanas. Impermeabilizaram-se solos, canalizaram-se ribeiras e rios, construiu-se em zonas naturalmente inundáveis e mantiveram-se redes pluviais que já não respondem aos intensos picos atuais.

Quando a capacidade de transporte do leito natural das linhas de água é excedida, vai encontrar sempre um caminho alternativo, muitas vezes com as consequências que temos assistido em todos os serviços noticiosos dos últimos dias.

Mas há um paradoxo evidente: a mesma água que hoje provoca prejuízos por excesso é a que fará falta amanhã, em contexto de escassez. O desafio já não é apenas drenar rapidamente, é gerir de forma inteligente.

Continuar a reagir depois do problema acontecer é caro e desgastante. E, sobretudo, é evitável.

Preparar as cidades para as cheias não significa acabar com o risco, isso seria irrealista. Significa reduzi-lo de forma técnica e estruturada. Significa criar zonas onde a água possa ser temporariamente armazenada, reforçar sistemas de drenagem onde é mesmo necessário, recuperar linhas de água, apostar em soluções que permitam atrasar, infiltrar e controlar o escoamento.

Significa também aproveitar essa água: promover a retenção, a infiltração e a recarga, integrar sistemas urbanos de drenagem sustentável, e articular o planeamento hidráulico com uma visão mais ampla de gestão do ciclo urbano da água.

Há exemplos positivos em Portugal que mostram que isto funciona. Em Setúbal, por exemplo, há cerca de 20 anos que o problema das cheias começou a ser tratado de forma estruturada, com a elaboração de um Plano Diretor de Drenagem de Águas Pluviais que identificou as fragilidades da cidade e definiu soluções concretas.

Um dos elementos centrais dessa estratégia foi a criação de uma bacia de retenção numa área de baldio que atualmente corresponde ao Parque Urbano da Várzea, responsável pelo controlo dos caudais das ribeiras da Figueira e do Livramento.

Antes da sua implementação, as zonas baixas da cidade registavam episódios recorrentes de inundação sempre que a precipitação era mais intensa. Hoje, esta infraestrutura, com capacidade para cerca de 240 mil metros cúbicos de água e integrada num sistema que totaliza aproximadamente 300 mil metros cúbicos, funciona como uma zona de amortecimento à entrada da cidade, retendo temporariamente os picos de caudal e protegendo a zona baixa da cidade.

Mais do que uma obra hidráulica isolada, trata-se de uma solução integrada no espaço urbano: o Parque da Várzea é simultaneamente uma zona de lazer e um sistema de proteção contra inundações. Não se eliminou a chuva, deu-se tempo à cidade para a gerir. E esse “tempo” faz toda a diferença.

Este tipo de intervenção mostra que é possível passar de uma lógica reativa para uma lógica preventiva. Em vez de gastar recursos a reparar danos, investe-se antes em reduzir o impacto. Em vez de correr atrás da água, antecipa-se o seu comportamento.

O que falta não é conhecimento técnico. São, isso sim, instrumentos de planeamento consistentes, modelação atualizada, integração entre sistemas e uma visão de médio e longo prazo na gestão do território e da água.

A precipitação vai continuar a cair – por vezes em excesso, por vezes em falta. A pergunta é simples: queremos continuar a ser apanhados de surpresa ou queremos cidades que saibam conviver com a água, em todos os seus extremos?

A diferença começa muito antes da próxima tempestade. E muito antes da próxima seca.